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LIXO DO MUNDO PARA NA ILHA DO MEL
por Ricardo
Uma garrafa fechada com uma rolha é lançada ao mar. Dentro, um bilhete escrito à mão, para um destinatário anônimo, cujo conteúdo quase sempre remete a uma declaração de amor ou a pedido de socorro.
A cena imortalizada no cinema como um gesto romântico e solitário, na vida real ilustra uma das mais graves agressões ao meio ambiente: o lixo jogado nos oceanos e que vem parar nas praias trazido pela maré.
Uma pesquisa inédita, feita pela bióloga Andressa Rutz Debiazio, revela que o litoral do Paraná na está a salvo das garrafas, latas e embalagens que são arremessadas pelo homem em alto-mar e nas regiões costeiras. O estudo, que embasou monografia de conclusão do curso na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC), foi feita na Estação Ecológica Ilha do Mel, que compreende 95% da área total da ilha, no litoral do estado.
O resultado foi surpreendente: a bióloga encontrou 148 embalagens de 42 países diferentes (como por exemplo: inseticida da Grécia, coquetel de frutas dos Emirados Árabes, água mineral da China, produto de limpeza do Japão, poliuretano da Turquia, etc.). Material descartável, mas perfeitamente reciclável como metal, vidro e, na maioria, plástico (61%). Lixo que demora de seis meses a 500 anos para se decompor na natureza. Cerca de 76% das embalagens são de produtos alimentícios (sólidos e líquidos), com destaque para as garrafas de água (42%). Os produtos foram identificados pelo idioma nos rótulos e, sobretudo, pelo código de barras, que segue uma tabela universal. Foram ao todo dez coletas realizadas entre outubro de 2004 e maio de 2005 ao longo dos 22 quilômetros de costa da reserva ambiental (a ilha toda tem 35 quilômetros). Uma pequena amostra dos quilos e mais quilos de lixo estrangeiro que chegam às praias de todo o estado diariamente.
A explicação para tamanha sujeira pode estar no vaivém de navios nos portos de Paranaguá e Antonina. Ao longo da pesquisa, Andressa trabalhou com algumas hipóteses para justificar a presença dos resíduos na Ilha do Mel:
1. Turistas estrangeiros: a maior parte das embalagens achadas é de alimentos, tipo de produto que não é trazido por turistas em viagens de férias. Hipótese descartada.
2. Moradores da Ilha: poucas famílias moram na Estação Ecológica e elas não têm acesso a esse tipo de produto internacional. Hipótese descartada.
3. Correntes marinhas: devido ao bom estado de conservação, é muito difícil que o lixo encontrado tenha viajado do alto-mar até o litoral. Por isso, a hipótese mais aceitável é que o lixo foi jogado próximo à costa e em razão da maré tenham chegado mais facilmente às praias. A proximidade com os portos de Paranaguá e Antonina é um agravante. Esta parece ser a hipótese mais provável.
Diante dessa evidência, para ela ficou claro que os navios de todo o mundo que cruzam o Canal da Galheta em direção à Baía de Paranaguá têm culpa no cartório. Segundo a bióloga, não há provas, mas acha difícil acreditar que não sejam os navios que estejam jogando esses resíduos na água.
Por ano, os portos paranaenses recebem em média 2,5 mil embarcações de todo o mundo. De janeiro a junho de 2005, foram exatos 1099 navios de 30 nacionalidades diferentes. A maioria dos objetos encontrados pela bióloga foi fabricada na China e na Itália, mas isso não quer dizer que os navios com essas bandeiras sejam os campeões da sujeira. “Não posso afirmar que determinado lixo é do país tal. Um navio chinês pode ter atracado, por exemplo, no Chipre antes de vir ao Brasil e trazido mercadorias fabricadas lá e não na China”, esclarece.
A questão principal, segundo ela, é o desrespeito à legislação internacional que rege o tratamento do lixo em navios. “Existe um certificado de origem que trata da questão do lixo. Cada vez que uma embarcação pára num porto precisa apresentar esse documento e aí recebe outro para apresentar no próximo porto. Até onde sei, o Brasil não solicita a apresentação desse certificado”.
(Sérgio Luís de Deus, Gazeta do Povo, 14/08/2005)